"-Qual seu signo?"
Essa foi a primeira coisa que ouvi de ti, antes mesmo de desenrolarmos uma conversa mais séria. Respondi a pergunta como alguém que aposta na mega-sena. Queria sair como vencedor desse jogo da vida definido pela astrologia. Será que conseguiria atender os seus "requisitos astrais"?
Enfim, bingo! Você adorou meu signo, e até fez um mapa astral completo para mim, me explicando o que cada rabisco significava. Aquela confusão de linhas, de alguma maneira, era eu, me representava. Fiquei feliz em ouvir as diversas características que nem mesmo sabia que tinha. E, como é natural de toda criatura humana, depois de um bom tempo falando sobre como o ascendente influência em minha jornada, resolvi retribuir a pergunta inicial.
Me surpreendeu ouvir toda a defesa que fez ao descrever o seu signo. Não que eu me importasse com isso, pois obviamente não me importava. Não acredito em estrelas ou astros mexendo com a nossa vida. A experiência sim, essa faz diferença. Não o céu ou seja lá que forças místicas regem isso tudo.
Depois de ouvir o que você tinha a dizer, respondi com certa indignação na voz, que era desnecessária toda aquela explicação, pois eu não me importava. Tudo bem, disse. Defendeu seu signo com unhas e dentes, mas nem sequer me contou qual era.
Prosseguimos com nosso café, contamos histórias, rimos. E eu o beijei. E ele me beijou de volta. E nós nos beijamos. E acredito que nem mesmo os astros poderiam interferir naquele momento. Acho que eles estavam felizes por nós dois.
E então, quatro meses depois, eu estava apaixonada. Sim. Apaixonada de verdade. E nós tínhamos uma conexão incrível. A gente se entendia perfeitamente, tínhamos ideias parecidas, víamos séries juntos; e na cama era espetacular. Uma ligação forte demais e sem explicação. Era delicioso estar contigo.
Tudo ia muito bem, mas então, de um dia para o outro, as coisas mudaram. Você se afastou. Deixou de responder minhas mensagens, me ignorou. Começou a sair com outras pessoas. Tá, a gente não tinha firmado um "namoro" nem nada disso, porém me chateou muito a situação, pois eu não entendi o que estava acontecendo.
Depois de três dias sem nos falarmos, resolvi ir até a sua casa e, talvez, essa tenha sido a ideia mais idiota que fiz na vida. Cheguei de mansinho, toquei a campainha e fui recebida por um colega seu, que me pediu para esperar por ti, pois você estava com visitas. Sentei no sofá da sala e aguardei. Fiquei sozinha com meus pensamentos, ouvindo gemidos e gritos vindo do seu quarto.
Sentar naquele sofá e aguardar você finalizar sua transa foi a coisa mais dolorosa que já fiz na minha vida. E doeu. E dói. E machuca. Meia hora depois, vocês saíram do quarto. Ela com o cabelo bagunçado e o batom borrado. Você sem camisa e apenas de samba-canção. Ambos olharam para mim, e me senti uma folha de papel que acabara de ser amassada e descartada.
Depois que ela foi embora, finalmente consegui olhar em seus olhos e dizer o quanto aquilo tinha sido injusto comigo. Não chorei, mas queria. Aguentei o que pude. Xinguei o quanto tinha direito e até mais. E, após ouvir tudo que eu tinha a dizer, sua resposta foi a mais irônica de todas.
Despreocupadamente e como se não fosse nada, falou que eu sabia que você era assim, que tinha deixado claro quando a gente se conheceu. Era natural do seu signo. Eu ri ao ouvir essa justificativa. Usar o signo como desculpa para agir como um babaca? Essa era nova pra mim. Não desdenhei suas crenças, mas dei as costas e fui embora antes mesmo que terminasse de falar.
Duas semanas depois recebi um "bom dia" de um número desconhecido e, ao abrir a foto para ver quem me chamava, percebi que era você. Pensei em ignorar, porém eu não era assim. Iniciei uma conversinha de praxe, como se fôssemos apenas velhos conhecidos. Porém, após alguns minutos conversando, percebi que estava caindo no mesmo joguinho de novo.
Antes de deletar a mensagem e bloquear o contato, perguntei despretensiosamente qual era o seu signo, o motivador do nosso afastamento, o verdadeiro vilão dessa história. "Ah, eu sou de aquário", respondeu-me e, após isso, deletei-o e bloqueei o número.
Não que eu me importasse com signos, mas depois disso nunca mais consegui ficar com um aquariano.
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