Aquela foto guardou seu último sorriso.
Todos que a viam, jamais imaginavam a dor que carregava em seu coração solitário. Ela não se sentia o bastante para nada -não tinha motivos para continuar. Odiava o tempo, as horas, a maneira como o ponteiro do relógio girava; queria fugir da rotina, da correria, da turbulência. Não era feliz com as próprias escolhas que, convenhamos, não haviam sequer sido dela.
Sua vida tinha sido escrita por outras pessoas. Nada podia fazer para mudar. A caneta jamais esteve em sua mão. O roteiro não era seu, só tinha que segui-lo. Era aquele seu fardo e seu destino -talhado em si com brasa. A taça de vinho tinto resplandecia em sua mão. A unha sempre roída -um sinal claro do nervosismo que golpeava sua mente inquieta.
Em pé no peitoril da sacada, observava a noite silenciosa. O silêncio é um lugar solitário. Olha para baixo. Dez andares. Onze se contar o térreo. A sensação do aço frio sob seus pés descalços. O universo a um passo de distância.
Inspira o ar frio da madrugada uma última vez -faz questão de contar até dez. Tira uma última foto. A selfie da decisão final. O rosto sorridente, com olhos baixos e tristes, bilha na tela do pequeno aparelho. Deixe que continuem pensando que ela estava bem; que foi apenas um acidente tolo de uma bêbada imprudente.
É agora. De braços abertos, simplesmente salta para o que considera a liberdade.
Flutua no céu escuro. Sente seu corpo leve pairar no ar. A garoa fina da madrugada abraça-a. Ela até consegue ver as estrelas por trás das nuvens carregadas. Sente-se parte do universo. É uma galáxia. O próprio sol. Mas atinge o solo como um meteoro.
O estrondo é ouvido por poucos.
O concreto frio será sua cama nesta noite chuvosa.
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