Não quero ir embora, mas não sei como poderia ficar e não pensar no que aconteceu. Foi a primeira mentira em dez anos de casadas. Ela me disse que estaria na praia, porém esteve em outro lugar -e não estava sozinha. Uma caminhada inocente, segundo me relatou mais tarde. Só que não paro de pensar que não houve inocência, a começar pela mentira. Embora tenha sido a primeira, destruiu toda a segurança que construí nesse tempo todo.

Porque é isso que uma mentira faz. Destrói cada pedaço da verdade e ocupa todos os espaços que encontra: enquanto estou lavando a louça, ela preenche minha cabeça; quando vou ao mercado, ela me cutuca, e parece que a qualquer momento vou ver o cara com quem você saiu; quando tento dormir, ela revira meus sonhos, deixando-me insone. Tento me ocupar, me distrair, pensar em coisas banais, como a roupa por passar ou as crianças na escola, só que é mais forte do que eu.

O perfume dele impregnou minhas narinas e não consigo mais não sentir aquele cheiro o tempo todo e em todos os lugares. É como se ele estivesse comigo também, porque ele está. Está nos meus pensamentos, nos lugares que vou, nas mensagens que vejo você mandar para suas amigas, no gosto do teu beijo; ele é mais meu do que seu, e a culpa sua.

Não entendo como pode fazer isso comigo e entendo menos ainda como consigo permanecer. Te dei cada minuto que tinha e não sobrou tempo algum na ampulheta. Tento fazer parecer que estou bem, só que nem sempre é fácil. Quando meus amigos disseram que te viram num bar, acompanhada, eu juro que parte de mim morreu. Desde então, vivo pela metade, a metade que ainda te pertence, que implora para estar contigo.

A metade que sente a mentira, que sabe da mentira, mas que prefere ignorar. Nem sempre dá certo. Por exemplo, nesse momento estou chorando. É que sonhei com ele essa noite. Como disse antes, ele é mais meu do que seu agora.