É inverno.

A neve cobre as árvores e a estrada, deixando toda a cidade envolta num cobertor branco gélido. Tento manter-me aquecida enquanto meu coração treme. Minhas lágrimas não conseguem sequer escorrer. Estão congeladas dentro de mim. O frio engole as entranhas da minha alma e a culpa é sua.

Três meses sem ti. Sinto o abismo entre nós expandindo exponencialmente nesse tempo que, embora curto, aumenta mais a cada tic-tac do relógio na parede da sala. Acendo um cigarro e preencho com fumaça o vazio deixado pela saudade. Mato as borboletas que nasceram em meu estômago com álcool barato.

Preciso afastar do pensamento o estranho você que forma-se em meu interior. O você diferente do garoto que conheci dois anos atrás. O você que decidiu dar um tempo para o eu que te ama. Meus pelos ouriçam ao avivar tais pensamentos.

Com a cabeça carregada pelo álcool, os sentimentos ultrapassam a razão e saio em meio ao manto invernal, arrastando meus pés descalços pela estrada fria até seu coração. É uma caminhada dura. O vento afiado corta minha pele como uma lâmina, deixando meus lábios roxos. Minhas mãos tremem e meus pulmões parecem carregados por chumbo.

Mas consigo chegar em frente à sua casa. As luzes amareladas são a única iluminação da rua nessa noite escura. A lua está escondida atrás de alguma nuvem e o céu exibe um tom preto sem estrelas. Estou coberta pelo frio da escuridão. Quero entrar no calor do teu abraço e descongelar essa pobre alma solitária.

Metros nos separam. Uma chama acende em meu peito. Consigo respirar de novo. Dou mais um passo, mas paro ao te ver próximo a janela. O vidro embaça aos poucos pela sua respiração quente. Ali está você, com seu jeito de menino e o cabelo bagunçado. Sombras formam-se na calçada. Você não está sozinho. Ela, seja ela quem for, está contigo.

Vejo os cabelos loiros entrelaçados em seus dedos. Um sorriso bobo brincando em seus lábios. Você está usando o casaco que te dei no seu aniversário e com os braços ao redor da cintura dela. Ela está ocupando o lugar que costumava ser meu.

Minhas pernas cedem ao frio. Sinto um balde de água fria ser jogado na chama de esperança que tinha despertado. Deito na neve e observo o céu noturno. Fecho os olhos, enquanto sou engolida pelos flocos brancos que caem sobre mim.

Congelo. E continuo assim. Congelada.

É inverno.

Será eternamente inverno para um coração partido.