Olho no espelho e consigo sorrir para o rosto que reflete. Meses atrás esse reflexo parecia um zumbi. Estava em uma fossa tão funda, que pensei que jamais conseguiria sair. O sorriso é tímido, mas é genuinamente sincero. Estou alegre. Não feliz ou radiante, mas já é um avanço. Quando terminamos eu definhei: semanas a fio deitada na cama, levantando apenas para ir ao banheiro, perdi peso, fiquei com olheiras, sumi do mundo.
Como um luto, os primeiros dias foram difíceis.
Saber que aquela pessoa que estava ali contigo o tempo todo simplesmente não está mais, que não sairão mais juntos nem farão jantares com amigos, que a cama de casal terá espaço de sobra, pois apenas um dormirá nela; pegar o celular e esperar por uma mensagem, um e-mail, um sinal de fumaça, que nunca chega; tudo isso machuca. E não é uma dor romântica como em um livro, é uma dor real, lancinante; que sufoca e estrangula.
Só que aos poucos a sensação de perda vai sumindo, vai abrindo espaço para novas experiências: visitei aquele restaurante que você achava péssimo, ouvi aquela música que você detestava, vi aquele filme de terror que nunca quis ver comigo; e tudo isso me mostrou que eu posso existir depois de você, mesmo que por vezes tenha parecido que não.
O tempo passou, andou, voou; ah, o tempo transforma as pessoas em lembranças. Isso não quer dizer que te esqueci ou que deixei de te amar. O amor permanece, as coisas boas permanecem, mas já não sinto mais sua falta, já não penso mais em você antes de decidir algo para comer ou algo para ouvir. Você continua em minha memória, mas não mancha mais meu coração. Não carrego mais o fardo que você me entregou quando escolheu ir embora. A dor que plantou em meu coração já não floresce mais.
Sorrio para o espelho mais uma vez.
Quanta saudade eu estava de mim mesma.

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